“Ensinar é uma relação, e as crianças e jovens foram convencidos a não aprender.”
ilustração: João Mascarenhas
Entrevistámos Carlos Fernández Liria¹, um dos mais originais e instigantes pensadores da educação. Nesta entrevista ataca a noção de competências, apresentada com uma roupagem de esquerda que considera “delirante”, questiona uma escola esvaziada de matérias científicas, recorda como tudo isto visa desqualificar os estudantes (tirar-lhes a possibilidade de uma profissão) para servirem de força de trabalho precária, flexível e alienada que configura a sociedade capitalista atual. Defende que a escola não é para alimentar prédicas morais, seja de cidadania, seja de empreendedorismo, como querem os intelectuais do capital. Preconiza que os professores voltem a lutar pela sua liberdade académica e de ensino, afirmando a sua condição de intelectuais organizadores da ciência, da arte e da cultura, em todos os graus - contra os governos, as empresas, a OCDE, o Banco Mundial e a UNESCO, que fazem da escola um laboratório para a adaptação dos jovens ao mercado, destruindo a profissão de professor. É um defensor radical de uma escola transformadora, igualitária e democrática, pública, gratuita e universal, realmente comprometida com o rigor sistemático dos processos de ensino e aprendizagem capazes de assegurar a formação histórico-crítica das novas gerações.
Raquel Varela (RV) Carlos, no livro Escuela y Libertad (Ed. Akal, 2024)², defendes que a escola não é uma creche, ou um espaço de assistência social, pois deveria ser um local de ensino e de processos de aprendizagem. Dizes também que a escola não deve ser de esquerda ou de direita, deve ser uma escola pública. Em Portugal e em muitos países a esquerda, que se autodenomina progressista, defende, por exemplo, o ensino da cidadania, como se as lutas históricas pelos direitos civis, políticos e sociais não fossem preocupações sistemáticas da história, da sociologia e da filosofia, disciplinas que perdem espaço no currículo para o dito ensino de cidadania. A extrema-direita, por sua vez, condena a disciplina de cidadania, estabelecendo assim uma polémica superficial que apaga o esvaziamento das referidas disciplinas de História, Sociologia e Filosofia. Como discute o livro essas visões?
Carlos F. Liria (CFL) Esse último livro é uma tentativa de criar uma ferramenta para que a esquerda possa pensar num programa de educação adequado. A ideia veio da nossa intervenção no Grupo de Educação da coligação Sumar. Havia um grupo de educação em que participámos e ficámos horrorizados porque eles estavam a tentar desenvolver um programa de esquerda... criando uma escola de esquerda! Tentámos fazer entender que a escola pública era uma invenção justamente das classes trabalhadoras que tinha de ser defendida com unhas e dentes, mas que não havia necessidade de defender que a escola era de esquerda, o que a esquerda tem de fazer é defender a escola pública e defender a pluralidade que caracteriza essa escola pública. Porque se a esquerda cai na armadilha de tentar defender uma escola de esquerda, na verdade está a optar por um modelo que é muito bom para a direita, porque se a esquerda cria escolas de esquerda, a direita cria escolas de direita. E então o Opus Dei pode criar uma escola Opus Dei, e as Testemunhas de Jeová também.
E este é o modelo que em Espanha é denominado de “escola concertada”. Esta escola tem gestão privada, mas é financiada pelo Estado. A esquerda deve defender um modelo de escola pública contra a escola concertada, quer seja de esquerda quer de direita. (...) Então, se alguém tiver pais do Opus Dei, eles vão pôr os filhos numa escola do Opus com segregação sexual, fazendo-nos acreditar que o mundo inteiro é o do Opus Dei, de tal forma que o filho vai pensar com os do Opus Dei, vai ter professores do Opus Dei e colegas do Opus Dei, e isso é trancar as crianças numa prisão ideológica, também totalitária, (...) e os jovens confundiram completamente os limites do universo com os limites do Opus Dei. (...) O que pretendemos com a escola pública é proteger o direito das crianças de se libertarem dos pais para se libertarem da ditadura ideológica sectária da doutrinação familiar que recebem na sua família, e esse direito só pode ser garantido pela escola pública.
“A escola pública [é] uma invenção (..) das classes trabalhadoras que tem de ser defendida com unhas e dentes”. (...) A esquerda tem de (...) defender a escola pública e defender a pluralidade que caracteriza essa escola pública”.
RV: Nos teus livros, incluindo no teu debate sobre o ensino da filosofia, vais um pouco mais longe e defendes que existe, por assim dizer, um conhecimento, um esclarecimento e uma compreensão universal – o ensino como herança universal do Iluminismo referenciada na ideia de universalismo. Como dizes, também vai muito contra o pensamento que permaneceu dominante na esquerda parlamentar, que é a ideia do isolamento das identidades, de fragmentação dos sujeitos sociais, como se a sociedade fosse um agregado de indivíduos cada qual com os seus conhecimentos particulares.
Roberto Leher (RL): Carlos, falas de uma escola desinteressada, que justamente não é uma escola doutrinária. A tua reflexão aproxima-se da elaboração de Gramsci sobre a escola desinteressada?
CFL: Absolutamente. Acredito que o principal direito [do] cidadão é saber que existem coisas objetivas, que existe um horizonte de objetividade. É claro que ninguém tem a verdade nas mãos. Ninguém recebeu uma iluminação divina. Mas no espaço público as coisas são discutidas – discutidas e contra-argumentadas. E há um efeito de objetividade. Nem tudo é relativo, esta coisa de tudo ser relativo é uma ideologia pós-moderna que se adequa à flexibilidade neoliberal.
Sempre digo isto aos meus alunos: quando Einstein escreveu no quadro a sua famosa fórmula: E = mc², ou seja, a energia é igual à massa vezes a velocidade da luz ao quadrado, um estudante levantou a mão e disse: “E para que serve isso? Será usado?” E Einstein teria respondido: “Espero que não. Mas é lindo!”
Depois serviu um propósito e também uma atrocidade, para construir bombas atómicas. Mas em princípio, a ciência tem de se propor conhecer para saber conhecer de forma desinteressada. Como afirmaste, Roberto, como dizia o Gramsci.
Existe uma objetividade científica a que os jovens na escola têm direito. Conhecimento desinteressado. Não é a definição de conhecimento filosófico, é a definição filosófica do conhecimento em geral. [Defendemos que] O conhecimento teórico em geral [possa ser] desinteressado.
“Se o professor não for um intelectual capaz de sistematizar o conhecimento científico e cultural da sua disciplina para ensiná-la os processos de ensino e aprendizagem desfazem-se.”
RV: Em 2018, a lei das Aprendizagem Essenciais³, em Portugal, que é a mesma aplicada em vários países pela influência da OCDE, UE, etc. de reduzir o currículo, fragmentou e descaracterizou o currículo da História e, em contrapartida, ofereceu roteiros alienantes sobre como os professores devem ensinar que as crianças não sejam racistas, que promovam a tolerância e a boa convivência entre os povos. Eu digo aos meus alunos: “Então não vamos ensinar o nazismo e o imperialismo, porque eles não são ‘a boa convivência entre os povos’”? É como mudar o ensino da História para uma pregação moral. Uma missa alegadamente progressista. Eu deveria ensinar a história do colonialismo e do imperialismo, contextualizando que a biologia, e a sua pretensão dita científica sobre as diferenças entre o cérebro negro e o cérebro branco, eram funcionais para o imperialismo colonizar os povos? Não, devo ensinar aos alunos que devem ser boas pessoas, tolerantes, e não devem ser racistas, como se o racismo pudesse ser superado por prédicas morais, uma realidade desvinculada do imperialismo.
CFL: Totalmente verdade. A mesma coisa aconteceu connosco aqui. Começaram a surgir essas disciplinas de educação para a cidadania. Dizem que a função da escola é formar bons cidadãos. Eu acredito que esse não é o papel da escola. A escola tem de assegurar o conhecimento, e isso tem efeito na formação de bons cidadãos. Somos professores de escolas ou universidades, não somos pregadores. Deixamos isso para as seitas religiosas ou para as comunidades que de uma forma ou de outra têm as suas receitas éticas. Nós, professores de Matemática, acho que temos de explicar matemática, e isso é muito formativo. Isso é muito bom para que haja bons cidadãos. Um professor de História tem de explicar a história. Um professor de Filosofia tem de explicar filosofia. Cada professor não precisa de transformar a sua matéria em algum tipo de doutrinação ou formação moral para os seus alunos. Essa formação fazem-na as seitas religiosas ou as famílias em casa. Na escola, os alunos saberão que existe um horizonte desinteressado, uma objetividade que está acima dos diferentes relativismos, dos diferentes pontos de vista familiares, sectários, religiosos, etc., etc. Não, não devemos perder de vista a ligação entre escola pública e objetividade.
Esses assuntos, na verdade, são uma armadilha fatal. A coisa começou com a formação de bons cidadãos e finalmente acabaram por ser substituídos por assuntos que, na verdade, o que querem é formar bons clientes e bons empresários, bons empreendedores. A disciplina de Educação para a Cidadania, em Espanha, quando a direita começou a governar, foi substituída pela formação do espírito empreendedor, o empreendedorismo.
Ou seja, não se trata mais de formar cidadãos conhecedores dos seus direitos, mas empreendedores, ser flexível na selva do mercado de trabalho. Trata-se de formar um capital humano funcional para as necessidades do mercado empresarial – um empreendedor é um empresário de si mesmo, mas na verdade não passa de um trabalhador que perdeu os seus direitos. É um trabalhador que não tem sindicato ou associação profissional por trás dele, nem um acordo coletivo que o proteja. E, para isso, tem de ter uma vida muito flexível. Se uma empresa precisa de ti do outro lado do mundo, tens de poder ir para o outro lado do mundo, independentemente de teres certos direitos como cidadão – esses direitos desaparecem. Simplesmente tornas-te material humano flexível ao serviço das necessidades empresariais, que, aliás, são necessidades empresariais completamente malucas – é um mercado de trabalho suicida. Um mercado de trabalho descartável que transforma a escola pública numa escola descartável por meio dessas disciplinas.
“As plataformas tecnológicas das corporações estruturam algoritmos que aprisionam as crianças em bolhas definidas pelas ideologias do capital. De tal forma que deixam de ter contacto com os outros alunos e com os professores!”
RV: A filha dos reis do Estado Espanhol, Leonor, foi estudar numa escola de luxo em Inglaterra que proibia a utilização de telemóvel ou iPad, mesmo nos recreios, e o currículo era unificado até ao 12º ano, com maior peso nas ciências exatas, humanas e sociais no turno da manhã e à tarde com ensino experimental, artes, desporto, teatro, envolvimento comunitário. Ao fim de três anos tinha de fazer uma prova de redação filosófica crítica. As classes dominantes colocaram os seus filhos neste tipo de escolas e, ao mesmo tempo, inundam as escolas públicas de iPads e telemóveis, onde as crianças estão a ser preparadas para operar máquinas.
CFL: Em Espanha vivemos isso de uma forma assustadora. O mais recente é um tal DUA (Desenho Universal para a Aprendizagem), um sistema de ensino desenvolvido pela Fundação Bill Gates. Não é por acaso que a Microsoft tem muito a ver com isso. É a conceção mais pós-moderna e neoliberal da escola que se possa imaginar. Cada aluno, dizem, é um mundo diferente, não precisa de haver atenção à diversidade, porque somos todos diferentes. A diversidade é a norma. Não há nada comum e, portanto, o ideal seria que cada aluno estivesse diante de um computador com um algoritmo que se adaptava às suas necessidades especiais e à sua mentalidade [mas que em rigor moldam o perfil do estudante encerrando-o] numa bolha e separado do resto da turma.
O papel do professor seria apenas andar entre os alunos para ver se eles têm algum problema com o computador. Ou seja, o professor efetivamente desaparece. Não consigo conceber coisa mais distópica e louca. Os pais desesperados, porque os nossos filhos não param de consumir Instagram e TikTok e chegam à escola e ficam trancados numa bolha de computador em frente de um ecrã?! De tal forma que deixam de ter contacto com os outros alunos e com os professores!
Há sempre novos “métodos” pedagógicos, tentando inventar a pólvora. Porém, o que dizem os melhores estudos e pesquisas sobre o que funciona melhor na escola? Que o melhor é um professor que explica o conhecimento interagindo com os seus alunos, ou seja, o que costuma ser chamado uma exposição, um professor ao mesmo tempo dialoga com os alunos sobre os conteúdos que está a ensinar (...) e sem telemóvel nem computador. Gastamos uma fortuna para substituir as escolas, mas não têm nada de especial: com um quadro negro e um pedaço de giz, um professor pode ser suficiente e mais que suficiente para ensinar matemática, história, filosofia ou línguas.
Entretanto, as elites mandam os seus filhos e filhas para escolas que funcionam à moda antiga, porque sabem perfeitamente que são boas. Isto porque, naturalmente, as escolas privadas [voltadas para as elites] não obedeceram às ordens do Banco Mundial e da Organização Mundial do Comércio.
RL: Na OCDE e também no Banco Mundial, é possível observar um núcleo axial de construção da política pedagógica, que é o direito à aprendizagem. Mas é possível aprender sem ensinar, sem professores, sem orientação diretiva intencional ou instrução? Outro ponto é a existência de think tanks, como o Banco Mundial, cujas ideias sobre a formação de professores e a natureza do trabalho docente chegam à universidade, difundindo a noção de que os professores não precisam de realizar um trabalho intelectual de organização da cultura, de organização intencional da cultura, de diálogo crítico com os seus alunos.
CFL: Concordo plenamente, Roberto. No livro sobre escola ou barbárie analisámos os planos que foram feitos pelo OCDE e pelo Banco Mundial, da Organização Mundial do Comércio e da UNESCO desde a década de 1970, no nível primário, secundário e universitário (Bolonha por exemplo). Os documentos mais importantes que foram forjados nesse sentido na OCDE são os dos anos 1990. Os capitalistas perceberam que havia biliões de dólares/euros estacionados que não tinham rentabilidade comercial e começaram um processo de mercantilização da educação que não parou. Começou no ensino básico e secundário. Ficou muito claro que era preciso transformar a escola iluminista [comprometida com a socialização do] conhecimento numa espécie de ensino básico para capacitar os alunos para o mercado de trabalho. Então para quê títulos? E para isso também [foi necessário] modificar a universidade, tornar os cursos cada vez mais curtos.
As pessoas sairiam com um grau de cultura média, formadas para trabalhar em qualquer coisa, para serem flexíveis e para estarem dispostas, como dizem, a “aprender ao longo da vida”. Tudo isso significa que não tens nenhum título – qualificação, profissão – a defender no mercado, porque simplesmente não és nada. Cada um tem de adaptar-se ao que é pedido a todo o momento, de acordo com os caprichos do mercado de trabalho, certo? E então foram as organizações internacionais, como a OCDE, o Banco Mundial, o GATT (Acordo Geral de Tarifas e Comércio)4, que começaram a trabalhar a conceção de uma escola que tivesse de ensinar já não conhecimentos, mas competências, capacidades.
Foi o Processo de Bolonha. A que se chamou convergência europeia – a propaganda era que se estava a colocar a universidade ao serviço da sociedade. Mas sempre que se coloca ao serviço desta sociedade, a escola coloca-se efetivamente ao serviço desta sociedade, ou seja, [ao serviço] do mundo dos negócios.
O objetivo de colocar a universidade ao serviço da sociedade era colocá-la ao serviço do mercado, ou seja, mercantilizá-la. E, para isso, toda a rede de graus e qualificações académicas teve de ser desfeita. Toda aquela rigidez feudal, diziam... Desintegraram-se departamentos e cátedras em unidades de investigação, cujos membros têm de ir ao mercado vender a sua força de trabalho a cada quatro ou cinco anos. Além disso, não recebes dinheiro público, a menos que tenhas obtido anteriormente dinheiro privado. Se a Bayer, por exemplo, puser 10 euros no teu projeto de pesquisa, então o Estado vai dar-te 100€, porque é um projeto que tem interesse privado para uma empresa farmacêutica. O que significa que a Bayer está a receber 100€ de financiamento estatal para essa investigação, ou seja, 100€ de dinheiro de impostos e mais os investigadores que vão trabalhar para a Bayer e vão ser pagos com dinheiro dos impostos, ou seja, com o dinheiro dos outros trabalhadores.
É um golpe de mestre usar a universidade pública como caixa multibanco para que as empresas aspirem o dinheiro público e se financiem com o dinheiro dos impostos. Pois bem, isso coloca o dinheiro destinado à educação ao serviço do mundo empresarial, tanto ao nível secundário como ao nível do ensino superior. É um plano que existia desde a década de 1970, mas o que acontece é que começou a ser implementado de forma verdadeiramente séria na década de 1990.
RL: Hoje, no Brasil, 60% dos novos alunos que iniciaram um curso superior iniciam a sua formação em cursos à distância, e a maioria dos que lá estão são da classe trabalhadora. É um processo de concentração e de grande monopólio da formação da classe trabalhadora. Existem aproximadamente 2500 instituições de ensino superior no Brasil. Mas apenas 10 grupos controlados por fundos de investimento e com ações nas bolsas de valores, inclusive no NASDAQ, em Nova Iorque, têm 60% das matrículas dos estudantes do ensino superior. Há uma monopolização pelas empresas da formação da classe trabalhadora, e acredito que este é um ponto muito importante para se fazer uma reflexão sobre o significado da educação pública. O que Gramsci diz a propósito da escola unitária, que recusa a disjunção entre quem pensa e quem executa, poderá ajudar-nos a refletir sobre a universidade?
CFL: A melhor maneira de o mercado se livrar de todos aqueles, ordens profissionais ou sindicatos, que o possam controlar é dizer que já não há títulos. Isso aconteceu fundamentalmente com o Processo de Bolonha. O objetivo final era que não houvesse diplomas universitários. Falou-se de um cartão com uma banda magnética em que cada um tinha um currículo personalizado dos cursos, das licenciaturas, dos mestrados que fizeram na vida. Cada trabalhador teria de negociar com o seu currículo face a face com os empregadores, as suas condições de trabalho, ou seja, é uma forma de a luta sindical desaparecer.
RL: É possível que a esquerda defenda um projeto como este? O que está a acontecer?
CFL: A questão é que essa mercantilização da universidade foi disfarçada como uma maravilhosa revolução educativa com conotações pedagógicas de esquerda. Não haveria mais ditadura, não haveria mais a autoridade do professor. Estas coisas que ouvimos desde 1998 significam simplesmente [que os organismos internacionais pretendiam] livrar se dos professores, porque agora há supostamente métodos pedagógicos que já não precisam do professor. Ou então eles são formados nessas novas pedagogias (gamificação, projetos, etc.) que aparentemente são a última moda da esquerda. Isso vem disfarçado de antiautoritarismo, de antidisciplina.
Está tudo está virado de pernas para o ar, porque, para começar, pressupõe que a escola era uma instituição disciplinar, de vigilância e punição. Uma espécie de instituição total foucaultiana, ao mesmo nível dos quartéis, manicómios ou prisões. A escola não era isso. A escola era o oposto disso. Era uma grande conquista das classes trabalhadoras, uma bela instituição. O melhor contributo das classes trabalhadoras para a história da humanidade, o direito das crianças e dos filhos a libertarem-se dos pais e a conhecerem a objetividade científica, e saberem que o mundo ultrapassa os limites da sua família. Na famosa canção dos Pink Floyd, do álbum The Wall, onde se diz “Hey, teacher, leave them kids alone”5 a escola era apresentada como uma instituição prisional. Já começámos com o pé errado. É muito fácil para alguns senhores que se dizem pedagogos aparecerem a destruir essa instituição disciplinar, para tirar do caminho a figura do professor e da autoridade académica.
RV: A liberdade de cátedra para nós, como para um advogado ou médico, é a liberdade sobre o real do trabalho. Já foi destruída quase totalmente na escola secundária e agora fazem-no na universidade, com o Estado a determinar os conteúdos de cursos, aprendizagens essenciais, flexibilidade curricular. E a substituição da carreira, da cátedra, por professores gestores. Para isso foi estruturado todo um sistema de avaliação anónimo e sem que esteja previsto o diálogo, na forma de que “o cliente tem razão”. Isto abriu espaço à inflação das notas, fazendo da universidade uma empresa de venda de certificações (os cursos não correspondem ao saber real). A esquerda pós-moderna, que denuncia a escola como um espaço de dominação de classe, defende estes mecanismos como “defesa do aluno”, em vez de defender os cursos pré-Bolonha, a gestão democrática, as carreiras. E mais, defendem que a investigação siga o que dita a UE, a Agenda 2030 e os conteúdos a investigar, abrindo o flanco à extrema-direita para determinar o que se ensina. Não é normal que a agenda da ONU determine o que um professor da universidade faz, por mais progressista que seja.
CFL: Desde os anos 90 que o professor se tornou um inimigo, uma pessoa suspeita, preguiçosa, criminosa, corrupta e, em todo o caso, autoritária. Esta esquerda [pós-moderna] estaria lá para nos defender do professor. Assim, a espinha dorsal da escola pública está mortalmente ferida – sem liberdade académica e segurança no trabalho, sem a garantia de que os professores sejam efetivamente funcionários públicos, não há escola pública. E isso vai ao encontro da flexibilidade, que é uma palavra que a esquerda também comprou. O que queremos não é essa flexibilidade, mas o que se chama liberdade académica. Para isso, é necessária a estabilidade do serviço público, que deve ser garantida porque o professor não pode ser despedido no exercício da sua profissão. Um professor não tem de cumprir nenhum plano de governo, porque tem liberdade académica. Essa liberdade académica tem de ser defendida como algo sagrado. Daí essa ideia de transformar o professor num personagem suspeito de algum tipo de crime.
Em segundo lugar, a ideia de que se a escola vai mal é porque os professores não sabem exercer a sua profissão e, portanto, têm de ser ensinados pelos pedagogos. O que também se apresenta como uma coisa muito de esquerda – tem de se colocar o aluno no centro, dizem. Mas é claro que colocar o aluno no centro é retirar o professor do centro. E acima de tudo, eliminar a distância entre quem sabe e quem não sabe. E isso parece muito democrático, bom, mas para a escola é desastroso. Então, naturalmente, se já não houver diferença entre professor e aluno, os processos de ensino e aprendizagem desfazem-se. Nessa suposta igualdade, o melhor é que todos deem notas muito boas para ficarmos muito bem nos inquéritos e nos prestigiados rankings de escolas e universidades. Mas, claro, isso é o fim da liberdade académica. A liberdade académica deve basear-se no respeito pela figura do professor, e o que perdemos completamente é o respeito pela figura do professor. Foi um plano pré-concebido.•
¹Carlos Fernández Liria (nascido em 1959) é um filósofo espanhol e professor na Universidade Complutense de Madrid. Entrevista realizada por zoom por Raquel Varela e Roberto Leher em fevereiro de 2025. Raquel Varela é professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, historiadora e investigadora. Roberto Leher é professor de políticas públicas em educação e ex-reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
²Escrito com Javier Mestre, Escuela y Libertad – Argumentos para defender la enseñanza frente a políticas educativas y discursos pedagógicos demenciales (Ed. Akal, 2024).
³Decreto-Lei n.º 55/2018, de 6 de julho.
4Antecessor da OMC.
5“Eh, professor, deixa as crianças em paz”, da canção “Another Brick in the Wall, part 2”s
a população trabalhadora e jovem vive uma situação insuportável, causada pelos baixos salários, pela impossibilidade de aquisição ou arrendamento de habitação resultante do império da especulação imobiliária — na qual estão pesadamente implicados os membros do governo e deputados da direita, como revelava o jornal Público de 19 de Outubro;
a esta situação se soma a destruição do serviço nacional de saúde, do ensino público e a degradação dos transportes públicos que os governos têm promovido, retirando à população trabalhadora grande parte dos direitos colectivos que lhes permitiam sobreviver apesar dos baixos salários e promovendo a vergonhosa super-exploração dos trabalhadores imigrantes, quer no trabalho quer nas inaceitáveis condições de habitação;
enquanto isso, a inflação não pára de subir, nomeadamente a dos combustíveis e da alimentação, reduzindo drasticamente o salário real da generalidade dos trabalhadores e o rendimento e a viabilidade de pequenos agricultores, artesãos e micro e pequenas empresas;
o projecto de OE 2027 apresentado pelo governo propõe reduzir o investimento público em 31% e, em particular, o da habitação em quase 70%; cortar o orçamento da saúde em mais de 250 milhões e aumentar o da despesa militar em mais de 500 milhões; aumentar a massa salarial da função pública 2,3%, o que representa um corte brutal do poder de compra dos funcionários; aumentar de 6.700 para 8.200 milhões os pagamentos de juros da dívida pública, grande parte da qual resultante da nacionalização dos prejuízos da banca privada, Banif, BPP, Espírito Santo, etc.; “desagravar” o IRS dos salários médios e mais altos em um a três cafés por semana, concedendo ainda mais subsídios fiscais aos grandes senhorios e fundos imobiliários (“rendas moderadas”) e empresas (redução do IRC); continuar a usar o excedente da segurança social, que representa salário diferido dos trabalhadores, para compensar o défice orçamental causado pelos benefícios concedidos ao grande capital e à finança que parasita a dívida pública;
esta situação ocorre e se agrava num quadro de guerras e genocídios que alastram pelo mundo, tendo-se o governo português comprometido com a NATO/UE a aumentar a despesa militar até 5% do PIB nos próximos dez anos (passando dos actuais seis mil milhões de euros (o dobro do que era há cinco anos) para algo como 25 mil milhões de euros — ou mais), contribuindo, assim, para o alastramento das guerras;
enquanto isso, se multiplicam os desastres ambientais e as agressões às populações do interior, como no Barroso, o negócio dos campos gigantescos de painéis solares, etc.;
a situação descrita afecta toda a população trabalhadora e praticamente toda a juventude que vive, estuda e trabalha em Portugal e nos demais países da Europa e do mundo,
a juventude e a população trabalhadora, em Portugal e nos países europeus vizinhos, está a revoltar-se e mobilizar-se em massa, com toda a justiça, sendo, porém, alvo de repressão violenta dos governos e forças policiais,
os sindicalistas, trabalhadores e jovens reunidos em encontro nacional da Plataforma Unitária de Sindicatos decidem:
manifestar a sua solidariedade incondicional com as mobilizações dos jovens e trabalhadores, em, Portugal, em França, Espanha, Itália, Alemanha e no mundo contra a guerra, pelo direito à habitação, por um ensino e saúde públicos de qualidade e salários, condições de trabalho e pensões que lhes permitam viver com dignidade; e apelar aos sindicatos e centrais para que se associem, apoiem e protejam as acções da juventude trabalhadora e estudantil pelo direito à habitação;
condenar com toda a veemência a repressão que o governo português fez abater sobre os acampamentos de jovens no Porto e em Lisboa e exigir o fim de toda a repressão das mobilizações de jovens e trabalhadores no nosso país e no resto da Europa e do mundo;
exigir a obrigatoriedade de declaração e publicação de todos os fogos devolutos e sua mobilização imediata para alojar as famílias trabalhadoras; exigir a retirada imediata da proposta de novo regime do arrendamento urbano e a revogação de todas as medidas da “lei Cristas”, exigindo o imediato alojamento condigno de todas as famílias trabalhadoras e famílias pobres e vulneráveis, incluindo as imigrantes — até lá ficando proibidos os despejos e congeladas as rendas, travando a sua insuportável subida;
exigir a expropriação dos fundos imobiliários e um termo à transformação da habitação, direito constitucionalmente garantido, num negócio milionário; fixação das rendas em função do rendimento das famílias, num máximo de 30%; garantia de alojamento digno de todas as famílias e lançamento imediato de um plano nacional de habitação, para isso usando as verbas previstas para a despesa militar, os benefícios fiscais para o patronato e o pagamento dos juros ilegítimos da dívida pública;
exigir um aumento geral de salários de 15% para compensar a inflação acumulada, um aumento imediato do salário mínimo para 1.100 euros e indexação automática dos salários e pensões a um cabaz representativo das despesas das famílias trabalhadoras, controlado pelos sindicatos; semana de 35 horas sem redução de salário; fim da precariedade; contratos de trabalho para todos; transporte para e do trabalho gratuito e garantido pela empresas dos trabalhadores de empresas com efectivos superiores a 50;
exigir o financiamento adequado do SNS, da escola pública e do transporte público e reverter todas as medidas tendentes à privatização da saúde, do ensino e dos transportes;
exigir a redução da carga fiscal sobre os produtos de primeira necessidade e combustíveis, onerar os produtos de luxo e expropriar os super-lucros dos operadores energéticos;
rejeitar qualquer tentativa de subversão da segurança social, que é património dos trabalhadores, e de entrega dos seus fundos aos mercados de capitais; e rejeitar qualquer tentativa de voltar a contrabandear, agora medida a medida, o pacote laboral do governo, que foi derrotado pelas nossas greves gerais;
apelar à rejeição do projecto de orçamento para 2027 e a que as centrais sindicais, CGTP e UGT, e todas as direcções sindicais, comissões de trabalhadores e ORTs preparem a greve geral para impedir a sua aprovação na Assembleia da República;
apoiar o apelo das centrais sindicais do Estado espanhol a uma greve geral pela habitação e apelar ao apoio das centrais e direcções sindicais e ORTs portuguesas;
apelar à unidade e convergência da luta de todos os trabalhadores e jovens europeus, com os seus sindicatos e organizações, contra as medidas do capital e de Bruxelas, que a todos afectam, e contra as quais se preparam, já em Novembro, mobilizações de grande envergadura e greves gerais no Estado espanhol, França, Reino Unido, Bélgica, Itália, Alemanha e outros países.
Não aceitamos o caminho da miséria e da guerra! A mobilização fraterna da juventude e dos trabalhadores dos países europeus e de todo o mundo pode e deve pôr fim à caminhada para o abismo económico, social e ecológico.
*Estiveram representados no encontro os seguintes sindicatos: SNPVAC (aviação), SITEU (enfermeiros), S.TO.P (profissionais da educação), STCC (call centres), STGSSP (grandes superfícies), STASA (indústria automóvel), Sindicato dos Estudantes e os movimentos sociais Solidários e Rede Ecossocialista, tendo participado individualmente sindicalistas de vários outros sindicatos. Estiveram presentes como observadores representantes da associação Habitação Hoje.
A intervenção policial no Porto e em Lisboa na noite de 24 para 25 de outubro para desmobilizar as manifestações contra a crise habitacional foi mais um capítulo do uso do aparelho coercivo do Estado em benefício de uma classe exploradora e rentista.
Politicamente morto, o ministro Luís Neves é a representação do que de mais podre existe neste sistema: alguémque se serviu durante anos da sua posição no poder estatal para beneficiar economicamente e que encabeça agora uma operação violentíssima e desproporcional contra manifestações pacíficas. Fá-lo como prova de vida e para rogar o perdão do Chega, que contra ele fez obsessiva campanha durante todo o verão, para agora se deixar seduzir pela sua ação autoritária.
Esta deriva não devia ser surpresa. A elite económico-financeira defende à bastonada os seus interesses, a história demonstra-o. Neste caso, essa elite está não só a influenciar a cúpula governativa, como está ela mesma lá instalada: veja-se o património imobiliário daqueles que nos pedem mais sacrifícios ou para largarmos o “egoísmo”.
Não se agride só a luta pela habitação e as garantias constitucionais que nos restam, mas a experiência verdadeiramente democrática das assembleias populares que, em pequena escala, envolve politicamente as novas gerações, ao contrário do sistema farsante desta república oligárquica. Quando convidado para discursar nas comemorações do 10 de junho de 2019, o inenarrável João Miguel Tavares, passista amargurado e representante da miséria moral e intelectual do “comentariado” mediático, clamou poeticamente à classe política: “Deem-nos alguma coisa em que acreditar”. Agora que os jovens acreditam na construção de uma alternativa ao Estado económico e social que nos sufoca, é o mesmo pobre Tavares que, paradoxal mas significativamente, se levanta, não contra a emergência habitacional, mas contra as acampadas e as ideias “comunistas” que lá detetou.
A passividade de António José Seguro perante um dos mais visíveis atropelos às liberdades civis desde abril de 1974 é também um lembrete para os que encostam a esquerda à ditadura do voto útil e do mal menor. Abdicamos da construção de alternativas políticas em nome da defesa da democracia… e levamos bastonadas.
A revolta deve traduzir-se em formulação política. Não queremos defender o statu quo das sádicas alterações ao NRAU aprovadas recentemente pela direita. Queremos que o statu quo seja radicalmente transformado. Urge controlar as rendas e a compra do nosso parque habitacional por investidores e fundos especulativos estrangeiros (e nacionais) e a ampliação da habitação pública, por via de mais construção, recuperação e expropriação de imóveis sem utilidade social.
Apresentemos propostas, pautemos o debate, construamos uma alternativa que conquiste a maioria social.
O termo mockumentary designa um género de cinema, ou televisão, que apresenta aos espetadores elementos ficcionais no formato de documentário, essencialmente como forma de satirizar uma situação concreta, ou o formato documental em si mesmo.
Ainda que o termo venha dos anos 60 do século XX, foi popularizado por Rob Reiner, a partir do seu notável This is Spinal Tap, notável mockumentary acerca de uma banda rock britânica ficcional, em tournée pelos Estados Unidos. O filme, de 1984, satirizava alguns documentários da época (The Song Remains the Same, dos Led Zeppellin, por exemplo) e foi um grande sucesso para um realizador estreante, que depois veio a ser um dos grandes nomes do cinema americano.
A Hard Day’s Night (Os Quatro Cabeleiras do Após-Calypso, no título português), de Richard Lester, com os Beatles, realizado em 1964, é visto como um dos primeiros exemplos do estilo, que se desenvolveu sobretudo a partir do momento em que os arquivos de cinema e televisão passaram a estar mais disponíveis e a ser mais fáceis de consultar e de utilizar, permitindo a manipulação de imagens originalmente colhidas com propósitos totalmente diferentes.
Seria uma questão de tempo até que a televisão utilizasse o conceito, e duas das mais bem-sucedidas séries americanas de comédia assumiram o formato: “Uma Família Muito Moderna” e “The Office” (esta última, a partir de um original britânico).
Um dos nomes consagrados do cinema americano, que é incontornável quando o tema é o mockumentary, é Woody Allen. Nascido Allan Stewart Konigsberg, escrevia para televisão há já quase 15 anos quando assinou o seu primeiro argumento cinematográfico: What's New Pussycat (1965), realizado por Clive Donner. A sua carreira prosseguiu, com dezenas de realizações de diferentes filmes e a escrita de argumentos originais, de forma muito bem-sucedida, não isenta de polémicas, como as motivadas essencialmente por factos da sua vida pessoal.
Seguiu-se uma série de filmes de cariz significativamente diferente, onde Woody Allen se foi aproximando do melodrama, tendo chegado perto do que teria sido o trabalho de Ingmar Bergman, se alguma vez o realizador sueco tivesse trabalhado na América (sobretudo Stardust Memories, de 1980). The Serpent’s Egg (O Ovo da Serpente, em Portugal), que Bergman fez na América em 1977, por ser um elemento atípico na sua filmografia, não invalida o argumento.
Até que, em 1983, Woody Allen nos apresentou Zelig, a quinta essência do que é o mockumentary.
Leonard Zelig é um personagem que acompanhamos a partir dos anos 20 do século XX. Dos Roaring Twenties até ao início da Segunda Guerra Mundial. Podemos acompanhar o ambiente da América desses denominados anos loucos da década de 20, a que se seguiu a Grande Depressão, e depois a guerra. E, a par de um exercício de pura nostalgia, partimos de uma premissa cómica muito pouco comum, a saber: Zelig tem a capacidade de se adaptar, de forma total, ao meio em que se insere. Mais do que alguém com empatia ou mera capacidade de adaptação intelectual, ele assume as características físicas e psicológicas das pessoas que estão à sua volta. Muda de padrões de discurso, de características físicas (até de raça), chegando a engordar ou a fazer crescer apêndices capilares, se isso contribuir para se confundir com o grupo onde estiver inserido.
*/Banner Maio*/
Podemos interpretar esta premissa – a de adaptar literalmente o seu físico e comportamento psicológico do “outro”, moldando-se como cópia – como sendo o de levar, ainda mais longe as premissas do livro O Homem sem Qualidades, do austríaco Robert Musil. A outro nível, conhecemos a mesma premissa aplicada à análise da personalidade de atores célebres. Existe um episódio dos Marretas com Peter Sellers em que o ator confessa que não tem uma personalidade que seja própria, evoluindo de acordo com as personagens que interpreta, assim como, mais recentemente, tivemos Jim Carrey a encarnar quase literalmente, se possível, Andy Kaufman, no Man on the Moon (Homem na Lua, no título português), de Milos Forman.
Leonard Zelig, uma vez conhecida a sua capacidade excecional, é rapidamente descrito como “o camaleão humano”, e começa a ser tratado como uma atração digna de um freak show (termo que é injustamente traduzido para português como circo de horrores). E rapidamente nos é mostrada a razão de ser desta anomalia: Zelig tem apenas uma profunda necessidade de ser amado e, para isso, de não sobressair de modo errado. Imita o outro para ser aceite. Chegamos a conhecer as condições em que a personagem cresceu, e as vivências que foi atravessando. A vida na América no início do século XX implicava fortes pressões de assimilação cultural e, particularmente relevante para um jovem judeu, de forte antissemitismo. A anulação do “eu” surge como um mecanismo de sobrevivência psicológica para a personagem, que desenvolve assim uma condição (clínica), mais do que um superpoder.
Muitas sequências do filme são particularmente bem conseguidas, exatamente em momentos em que Zelig partilha o ecrã com variadas personalidades relevantes daquela época, lado a lado, mas invisível aos outros, no culminar da sua necessidade de se dar com toda a gente, com efeitos comparáveis ao que muitos anos mais tarde vimos em Forrest Gump, pela mão de Robert Zemeckis.
Usando as melhores técnicas do mockumentary, Woody Allen vai acompanhando as imagens da época com comentários proferidos por personalidades reais e notórias, que dão uma maior credibilidade à ficção que nos é apresentada. Podemos encontrar vários vultos da intelectualidade nova-iorquina da altura em que o filme foi feito, como Susan Sontag, Saul Bellow ou Bruno Bettelheim.
O enredo, que como seria de esperar não é assim tão complexo, acaba com um final feliz, com a psiquiatra que acompanhava Zelig, e que por ele se interessou, a acabar por desenvolver por ele sentimentos de outra natureza (sentimentos retribuídos também por Zelig, claro!), e essa ligação amorosa (ligação pessoal) acaba por fazer desaparecer a anomalia que o tornava o (tal) “camaleão humano”.
Muitos de nós só querem integrar-se em algo, ou socializar com outros, por vezes a qualquer preço.
Uma questão que se poderá sempre colocar a propósito da criação artística é a de saber o que moveu o autor, desde o primeiro momento. Será sempre possível perguntar se existiu alguma motivação específica para o autor ter desenvolvido este projeto e não outro qualquer. As eventuais referências culturais a que já fiz referência terão um propósito de enquadramento na história que está a ser contada. Mas, afinal, o que terá motivado Woody Allen a criar um personagem como Zelig?
Um dos maiores cineastas da história, ele próprio um cómico de exceção, Charlie Chaplin fez refletir em certas obras algumas das situações que foi enfrentando na sua vida pessoal. A sua vida sentimental acidentada, com vários divórcios problemáticos, gerou o filme Monsieur Verdoux (O Barba Azul, em Portugal). Anos mais tarde, a perseguição política a que foi sujeito pelo governo dos EUA serviu de inspiração ao filme A King in New York (em Portugal, Um Rei em Nova Iorque).
A verdade é que todos nos cruzámos com pessoas com características parecidas com este Zelig. Todos nós já encontrámos ou lidámos com pessoas que são como esta personagem. Muitos de nós só querem integrar-se em algo, ou socializar com outros, por vezes a qualquer preço. Cada pessoa que encontramos que diga que ainda está à procura de si próprio é possível que seja alguém que tem vindo a deixar um rasto de personagens que foi copiando e que, depois de não serem necessários, são deixados para trás, como uma cobra que abandona uma pele antiga. Por vezes também fazem vítimas, deixando cadáveres no seu caminho. E copiam outros para serem aceites, validados, terem uma vida.
Zelig é, por isso, um grande filme de Woody Allen, injustamente esquecido quando falamos da sua filmografia. Mas é pena.
Contra as expectativas do PT e até mesmo das sondagens, Flávio Bolsonaro vencera a primeira volta das presidenciais brasileiras com 2,2 milhões de votos de vantagem. A abertura das urnas no dia 4 de outubro provocou um choque nas pessoas de esquerda em geral. Considerando que os demais candidatos eram de direita e de extrema-direita e somaram 9,1 milhões de votos, o cenário de vitória de Flávio Bolsonaro na segunda volta parecia inevitável. Não o foi porquê?
Contra as expectativas do PT e até mesmo das pesquisas eleitorais, Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno com 2,2 milhões de votos à frente. Seu campo também elegeu os governadores do Sudeste e do Sul do país, alcançando 11 governadores no primeiro turno, que governarão 63% da população (e 16 governadores, com 71% da população, após o segundo turno), e avançou fortemente no Senado e na Câmara. Consagrou, assim, um lastro político que, diferentemente das condições de seu pai, permitiria à sua base de apoio avançar na implementação não apenas de um governo de cariz fascista, mas de um regime fascista, visto que controlaria também o Supremo Tribunal Federal.
A abertura das urnas no dia 4 de outubro provocou um choque nas pessoas de esquerda em geral. Considerando que os demais candidatos eram de direita e de extrema-direita e somaram 9,1 milhões de votos, o cenário de vitória de Flávio Bolsonaro repercutiu de modo profundo em todo o campo progressista. Silêncio, medo e perplexidade anunciavam um quadro de derrota antecipada. Nem os partidos nem a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e as demais centrais sindicais convocaram uma grande vaga de lutas, com a realização de plenárias populares antifascistas. Como superar uma vantagem estimada em 11 milhões de votos? Como proteger a militância e os movimentos populares da turba neofascista?
Centenas de milhares de ativistas sociais dimensionaram o significado prático de um governo ligado às grandes organizações criminosas, entre elas as chamadas milícias, que colocaria o Brasil no Escudo das Américas e radicalizaria a austeridade neoliberal extrema sobre os direitos sociais, como faz Milei. Indicadores da Comissão Pastoral da Terra registram 136 assassinatos de indígenas, quilombolas1 e trabalhadores do campo durante o governo de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro destinou recursos a Peixe, miliciano condenado no caso Marielle Franco2. Assim, movimentos indígenas e contra as mineradoras, torcidas antifascistas, estudantes, movimentos negros, de mulheres e da diversidade, sindicatos, entidades científicas e entidades profissionais foram se somando às manifestações.
Diante da iminente derrota de Lula da Silva no segundo turno, a irrupção de iniciativas autoconvocadas e livres das amarras burocráticas foi decisiva para a reversão do quadro negativo do primeiro turno, conferindo ao segundo turno um inédito caráter de massa e popular não cogitado pela burocracia do PT. Este artigo discute algumas tendências advindas dessa irrupção e defende a importância da reaglutinação de arcos de forças que pratiquem a autonomia diante do novo mandato do atual presidente.
Da derrota de 4 de outubro…
As mobilizações das juventudes, relativamente síncronas e espalhadas pelo mundo, que forjam a cena das lutas populares de 2026, dão visibilidade a novos sujeitos, agendas, métodos e formas de organização capazes de catalisar mudanças na correlação de forças de seus respectivos países e na conjuntura mundial. No seio da geração Z, mas não somente nela, estão se conformando novos sujeitos coletivos nas lutas populares mundiais. No caso brasileiro, as recentes manifestações foram as maiores do século e alcançaram o pico de 2 milhões de pessoas às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, em 25 de outubro. São perceptíveis a abertura a pautas3 mais amplas das classes trabalhadoras e a maior autonomia diante dos partidos oriundos da esquerda, enrijecidos pelo ciclo vicioso da burocratização e pela assimilação da austeridade como uma segunda natureza. O descolamento entre os movimentos que emergem e as práticas burocráticas desses partidos é acentuado pelo facto de que, quando assumem o governo, eles tratam assuntos públicos como habitação, transporte, educação, ciência, saúde e previdência como esferas a serem dirigidas pela tecnocracia. A despolitização dessas dimensões da vida social pavimenta o avanço das extremas-direitas.
*/Banner Maio*/
O Partido dos Trabalhadores (PT) também vive essa realidade de burocratização e de incorporação profunda dos preceitos da austeridade. O enfrentamento eleitoral com a extrema-direita mostrou-se mais árido do que a estratégia da campanha de Lula havia previsto para o primeiro turno das eleições nacionais. O governo estadunidense, com Trump e Rubio à frente, agiu em favor do candidato neofascista Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente. A Meta manipulou os algoritmos, censurou as maiores contas favoráveis a Lula e postergou decisões judiciais, enquanto as igrejas pentecostais e neopentecostais acionavam seus fiéis. É importante lembrar que, até o final do primeiro turno, mesmo temas de forte impacto para as classes trabalhadoras, como o fim da escala de trabalho 6x1 (seis dias de trabalho para um de descanso)4, não adquiriram real densidade trabalhista na estratégia de campanha. O fim da escala 6x1 foi tratado não como tema axial das relações de trabalho, mas como medida que demonstrava a preocupação social do candidato, especialmente por ampliar o convívio familiar. A dinâmica burocrática e publicitária parecia ignorar o enraizamento popular da extrema-direita de cariz fascista. Por meio de uma robusta rede de igrejas pentecostais e neopentecostais, que somam mais de 300 mil no país, e dos vínculos do candidato com organizações criminosas, sobretudo milícias, como demonstrado por Bruno Paes Manso5, a extrema-direita controla importantes territórios de favelas por meio da violência e do poder económico. Somados o difuso antipetismo e a rede de associações comerciais, de seguranças privadas e de aparelhos privados de hegemonia (APHs)6 diversos, o bolsonarismo assumiu características massivas, ainda que careça de organicidade partidária. Ao mesmo tempo, boa parte dos grandes capitalistas vinculados aos bancos, aos fundos de investimento, às commodities, às big techs, aos grandes meios de comunicação e aos conglomerados de APHs vinha impulsionando o candidato, tratado como legítimo a despeito de suas ligações perigosas.
Ainda assim, a condução da campanha de Lula seguiu nos estreitos trilhos da publicidade impulsionada por grandes somas de recursos, parte delas destinada às big techs, quando era evidente a falta de materiais elementares para o trabalho de campanha corpo a corpo. Não houve real interpelação nem acionamento dos sindicatos e dos movimentos sociais e estudantis. O silêncio abateu-se sobre as universidades públicas, sucateadas por anos de austeridade.
… à vitória de 25 de outubro: milhões nas ruas do Brasil contra o fascismo
As impressionantes manifestações, as maiores do século, embora não sejam um raio em céu azul, como visto nas grandes manifestações de 2013 e 2019, surpreenderam o país. Durante 20 dias, alcançaram mais de cinco milhões de manifestantes em todas as regiões do país, inclusive em cidades de pequeno e médio porte, conforme estimativas muito preliminares.
A exemplo do que ocorreu no primeiro estalido da rebelião estudantil na França, em 2026, no Brasil também foi um acontecimento molecular, realizado pelos estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense, localizada em Niterói, uma das raras cidades do estado do Rio de Janeiro que deram vitória a Lula no primeiro turno. Na noite de 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno, estudantes convocados pelo centro académico se reuniram para avaliar a situação e, em dado momento, concluíram que seria inútil aguardar o comando da campanha para retomar a iniciativa política e decidiram que o caminho era ir às ruas. Nas palavras de Virgínia Fontes, os estudantes “romperam o dique das defesas históricas erguidas pelo PT contra grandes mobilizações (ou ao menos pela maioria do PT), temeroso por saber que essas grandes massas populares podem ser incontroláveis e colocar em xeque alianças e compromissos problemáticos para elas”7. Em meio ao desalento, o ato que reuniu alguns milhares de pessoas ganhou enorme repercussão nas redes sociais, como o Instagram, e serviu de centelha para a deflagração das grandes manifestações. No dia 6, outro grande ato convocado pelas entidades estudantis, mas que ultrapassou largamente seu núcleo militante, aconteceu em Pernambuco, na UFPE, universidade que vinha sendo ameaçada pela extrema-direita e que, dias depois, foi atingida por um incêndio, cujas causas ainda estão sendo apuradas. Nesse mesmo dia, fandoms, como o perfil Taylor Swift Brasil, os fãs de Anitta e outros fã-clubes assinaram um manifesto conjunto convocando seus adeptos a lutar contra o fascismo e a buscar os votos dos mais de 33 milhões de abstencionistas do 1º turno. É importante destacar que esses coletivos, os fandoms, não compõem a organização tradicional das esquerdas estudantis, como os diretórios estudantis, por exemplo, embora parte de seus membros possua relação com partidos e outros coletivos. No dia 8, no Rio de Janeiro, aconteceu a marcha “Juventude na Rua pela Democracia” com forte participação de estudantes secundaristas, reunindo mais de 50 mil estudantes que ecoaram palavras de ordem diretamente antifascistas, contra Bolsonaro e, no caso, em defesa da eleição de Lula. Já nessa marcha, embora não como força convocante, o PT se somou às manifestações que reacenderam a agência das militâncias.
A sucessão de grandes manifestações em Belo Horizonte, Curitiba, Bahia, Belém, São Paulo, Rio de Janeiro, todas gigantescas, as tornou um espaço político para acolher milhares de militantes de outros movimentos que desejavam tomar a campanha nas próprias mãos. No dia 9, centrais sindicais saíram às ruas em luta pelo fim da jornada 6x1, afinal aprovado em 14 de outubro em virtude de amplo apoio popular. No dia 11, em São Paulo, ocorreu a maior manifestação até então realizada, com aproximadamente um milhão de pessoas, convocada de forma independente por movimentos sociais, pelo movimento estudantil e por torcidas organizadas do Palmeiras e do Corinthians e também por entidades que realizam a Marcha LGBT em São Paulo. A manifestação, da qual Lula participou, foi assumida como parte da campanha. As manifestações assinalam o propósito de conexão com as lutas sindicais e do conjunto dos trabalhadores. O tom é o antifascismo. E o intento é dialogar com os 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas e com os idosos, assim como virar votos nas franjas da direita. Essas manifestações culminaram no maior ato da campanha, convocado pelo candidato do PT no dia 24 de outubro, com cerca de 2 milhões de pessoas.
Dificilmente o desfecho teria sido o mesmo se as grandes massas populares não tivessem irrompido nas ruas, realizado diálogos diretos com trabalhadores dispostos a escutar por meio de milhares de pequenas brigadas nos terminais de transporte, feiras, supermercados, etc.
Para entender o alcance das convocatórias estudantis, que foram se amalgamando à campanha de Lula, é preciso considerar o peso do chamado Exército de Lula, liderado pelo deputado federal André Janones (Rede/MG), que alcançou mais de 10,5 milhões de pessoas no WhatsApp e que logrou alterar a performance dos algoritmos da Meta com postagens simples, síncronas e massivas. Em poucos minutos, milhões de pessoas foram convocadas para as tarefas do dia, como, por exemplo, aumentar a visibilidade do fim da jornada 6x1, conter as fakenews, sem propagá-las. As redes deixaram de ser monopólio da extrema-direita.
No segundo turno, Lula ampliou sua votação em 10,3 milhões de votos. A abstenção foi reduzida em cerca de 3 milhões de eleitores, o que possibilitou uma vitória por 4,4 milhões de votos.
Passados dois dias do resultado, Trump, após levantar dúvidas sobre o processo eleitoral, ainda não se pronunciou. Toda a União Europeia, a América Latina (exceto Milei), a China, a Rússia e países da Ásia e da África reconheceram o resultado eleitoral. Dificilmente o desfecho teria sido o mesmo se as grandes massas populares não tivessem irrompido nas ruas, realizado diálogos diretos com trabalhadores dispostos a escutar por meio de milhares de pequenas brigadas nos terminais de transporte, feiras, supermercados, etc. Impossível deixar de registrar o protagonismo das mulheres. Nas áreas populares, elas afirmaram sua rejeição ao bolsonarismo mesmo quando pastores orientavam o voto em seu candidato. Se a burocracia partidária e sindical tivesse prevalecido, nada disso teria ocorrido. Agora, é preciso extrair as aprendizagens, organizar e assegurar organicidade aos movimentos que resistiram ao avanço fascista. Todas essas mobilizações não podem ser desarticuladas em virtude da vitória eleitoral. E haverá forças que desincentivarão a auto-organização popular. Os partidos e mandatos da esquerda precisam estar vinculados aos movimentos que forjaram essa batalha. É preciso resgatar a prática de prosear8 quotidianamente com o povo. Em resumo, esses vibrantes 20 dias de lutas podem permitir retomar a perspectiva de frente dos trabalhadores como força autónoma para impedir o avanço do neofascismo, unindo-se a outras frações de classe antifascistas (marchar separados, golpear juntos). A estratégia frente dos trabalhadores é condição necessária para enfrentar a austeridade, que é, afinal, a incubadora das novas extremas-direitas no século XXI, e também por poder se consolidar como espaço de formação contra as barbáries que marcam os tempos atuais.
1 Descendentes de africanos escravizados que fugiram de fazendas, engenhos e senzalas durante o período colonial e imperial do Brasil, formando comunidades de resistência chamadas quilombos (NR)
2 PIRES, Breno. “Nosso senador”: Flávio Bolsonaro mandou emenda a miliciano do caso Marielle. Piauí, Rio de Janeiro, 21 set. 2026. Seção Vultos do Rio. Disponível em: https://piaui.uol.com.br/web/flavio-bolsonaro-miliciano-peixe/. Acesso em: 27 out. 2026.
3 Temas, reivindicações (Nota da revisão).
4 O fim da escala 6x1 altera a legislação trabalhista, determinando que o trabalhador tenha dois dias de descanso semanal, e reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial.
5 MANSO, Bruno Paes. A república das milícias: dos esquadrões da morte à era Bolsonaro. São Paulo: Todavia, 2020. MANSO, Bruno Paes. A fé e o fuzil: crime e religião no Brasil do século XXI. São Paulo: Todavia, 2023. MANSO, Bruno Paes; DIAS, Camila Nunes. A guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil. São Paulo: Todavia, 2018.
6 O conceito de aparelhos privados de hegenonia baseia-se na teoria do Estado ampliado, de Antonio Gramsci. Refere-se a organizações da sociedade civil (como institutos, fundações e associações empresariais) que, embora formalmente externas ao Estado, atuam na difusão de ideias, valores e consensos alinhados com os interesses do grande capital (NR).
7 Virgínia Fontes. Mantendo o gás. Aprendizados em andamento de uma campanha eleitoral de verdade, quando a política real assume a dianteira e derrota as burocracias e os poderosos.
8 Conversar, dialogar (NR).
SUBSCREVE O MAIO
E recebe a nossa newsletter todas as semanas gratuitamente.
Apoia o Maio!
Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.